A estória de um taxista

O separador foi colocado para evitar “o laço ao pescoço”. Acho piada à metáfora da ‘facada’, ao jeito rápido como atravessa a mão na garganta. O grande actor António Silva parece que desceu à terra. Entendido que o pescoço não corre risco de ficar enlaçado, a janela que separa o cliente do taxista fica aberta.
“Sabe”, em Cuba, baixo Alentejo, a miséria era alta. Calçou os primeiros sapatos, já a adolescência ia a meio do caminho. Enquanto a ditadura de Salazar marchava em Portugal, filiou-se no Partido Comunista Português. O carro perde a velocidade para acelerar a convicção: “Sou comunista até morrer e com muita honra.” Para afincar a firmeza canta a ‘Grândola Vila Morena’. Mesmo se uma amnésia lhe traísse a memória, lembrar-se-ia da letra. Quando a cantoria termina, relembro que o comunismo desandou do mapa. “Não é bem assim.” É. Raros são os países que não se despediram do socialismo virgem, o que não invalida o meu gosto por Zeca Afonso. Mas, o que lhe importa que a URSS tenha ido às couves, o tombo do Muro de Berlim, a reviravolta do Leste europeu?
A sentença, por enquanto, sem musical, vem a seguir: “O Comunismo, um dia voltará. O Comunismo nunca acaba.” Pois, com reticências. Falará de Cuba? “está a falar da minha Cuba?” Não. A outra. A dos charutos. Uma tosse bate-lhe palmas. Interrompo a gosma com os cubanos que tentam fugir de braços fortes na água e que são metralhados com a pontaria dos muchachos de Fidel Castro. “Não é bem assim”, responde, já preparado para um cantar alentejano. É. O mar das Caraíbas fica vermelho de tanta hemoglobina. As mulheres ficam viúvas. As mães mancas de filhos. Não continuo em direcção aos colarinhos da República Popular da China. Mudemos de assunto. De tema. De ares.
A veia poética, a dele, encarrega-se de trocar o ar: “que lindos são os teus olhos que eu sempre gostei de ver/ tu és a força da vida/ tu és o Sol a nascer.”
Faz “estas coisas”, mas, não se considera poeta. Olha para a pessoa, coisa, ou lugar e os poemas saem. Depois, e se calha, escreve-os.
“Ouça lá este que eu dizia, quando os bailaricos da minha terra estavam fracotes.” Por estar mais gente sentada do que a dançar? Confirma com a cabeça. Entendo o que o silêncio pretende. A poesia entrou outra vez no táxi. “Já vi um baile avagarado, na falta de haver quem cante, agora começo eu, siga o baile para diante!”
“Posso dizer um que é um bocadinho picante?” Pode. “Veja lá.” Pode. “A mulher é uma delícia para o homem navegar/ou de costas, ou de lado/ou de barriga para o ar.”